Pausa. Um gole.
"Menos eu”, penso.
Havia me frustrado demais para dizer ou assumir que ainda sim, possuía algum tipo de vício. Os meus haviam sido jogados fora, junto com recordações, cartas, fotos e bens que não me pertenciam mais.
Da janela da sala, eu via a cidade inteira. Frank morava no apartamento de cima e me visitava todos os finais de semana, para debater algo que julgasse interessante.
“Se você for analisar, cada ser humano existente no universo possui algo pelo qual possui grande necessidade de ter uma relação constante ou até mesmo, crescente. Já vi pessoas viciadas em maconha, cigarro, bebida, televisão, comida… Comida! Acredita que o John do terceiro andar não passa um dia da sua vida sem comer batata frita? Haha, soa como uma piada, não é mesmo?".
A rua está escura, nada tem vida lá fora. Acho que nem aqui dentro. Aquela discussão havia se estendido por horas e eu não sabia mais qual poderia ser o destino dela. Não conseguia prestar atenção em todas as palavras que estavam no ar. Frank era um cinqüentão, viúvo, ainda apaixonado pela falecida esposa, mas desiludido pela vida e sem esperanças de encontrar um novo amor. Era demasiadamente apaixonado por vinhos importados e fotografia. Foi por isso que nos conhecemos. Uma paixão em comum. Mas não um vício.
No dia em que estava me mudando para o prédio, nos encontramos no elevador. Engraçada essa história de elevador! Até mesmo filmes de romance costumam envolver encontros ao acaso em elevadores. Eu segurava uma caixa, com álbuns de fotografia e algumas câmeras da minha coleção. Ele se interessou por uma delas, que estava evidente e puxou conversa. Mais tarde, me chamara para um chá e nos tornamos grandes amigos.
“Eu, quando mais novo, lia muito. Meu pai tinha de comprar uma estante nova a cada dois anos e meio. Mas bem, isso não é um vício. Ou é? De qualquer forma, abandonei a leitura logo que minha doce Victoria adoeceu… gostaria de passar todo o tempo do mundo ao lado dela e dar toda a atenção que merecia.”
Depois de oito anos de convivência com Frank, sabia que toda vez que tocava no nome de Victoria, seus olhos enchiam de lágrimas. Victoria havia falecido há quatorze anos, mas permanecia viva na vida de Frank e nas suas memórias. Nunca tive coragem de perguntar a ele do que ela realmente levou a morte. Acho melhor assim.
Frank não parava com aquele discurso sobre vícios. Voltava a me questionar onde isso o levaria. Mas conhecendo-o, sabia o quão bem ele se sentia enquanto falava – mesmo que para as paredes – então, apenas permitia-o assim sentir-se. Minha mente estava preenchida de outros pensamentos. Pensamentos que ocupavam lugar até mesmo no meu coração. Precisava de soluções. Meus problemas clamavam por elas. E eu também. Já não daria mais conta de viver daquela maneira por mais muito tempo. Ah, se ele soubesse…

Não Frank. Outro alguém.
gostei! :)
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